Não se sabe o ano certo,
pode ter sido por volta de
quarenta e oito, ou nove, ou cinquenta,
o causo se espalhou de boca em boca.
Era um sítio perto de Iretama/Paraná,
um casal humilde e trabalhador,
três filhos homens,
mais duas filhas mulheres,
e uma garota que havia pego pra criar.
Sempre ao entardecer
no pacato sítio,
pouco depois do sol morrer
por completo,
todos daquele pequeno local
se recolhiam
pois acontecia um fato
que ninguém sabia –
as janelas e paredes da casa tremiam
a ponto de derrubar tudo o que havia
nas prateleiras e pendurado nelas.
A casa parecia
que estava tendo um tic tic nervoso,
e isso deixava
a todos muitos apavorados
e se partiam na reza
pra ver se parava ou acalmava
aquilo que incomodava a casa.
Mas que nada,
dia após dia
aquilo continuava
e cada vez com mais força,
e mais força a casa tremia
quebrando os vidros das janelas
e fazendo os animais do sítio berrarem,
uivarem, rangerem seu lado bestial.
E cada vez mais o evento se prolongava,
chegando a durar duas horas
de terror naquele local.
Até que um dia,
não só a casa tremia
e os animais ficavam ensandecidos,
mas algo começou
a bater na porta
deixando a todos
mais enlouquecidos.
Os moradores
já estavam convencidos
de que aquilo
era obra do ‘chifrudo’,
do ‘coisa ruim’,
o ‘treco feio do outro mundo’,
e que agora ele havia aparecido
pra querer algo
daqueles pobres mortais
que levavam a vida
sem muitos pecados
ou regalias.
“Deus está nos provando,
como fez com Jesus no deserto”
pensavam,
e rezavam mais e mais
pra ver que se o evento parava.
E nem com a ajuda
do padre da cidade
que fora benzer toda a casa,
encomendou missas
e terços por toda a região
adiantou tal procissão.
Dia após dia
o terrorismo aparecia
para aquela pobre família.
A casa tremia,
os animais berravam
e alguém batia na porta
e a tentava abrir por horas seguidas.
Mas o patrono
de pavio muito curto,
era provável
que não aguentaria
por muito tempo aquela putaria.
Armou sua carabina
e ficou esperando a alegoria
e naquele dia
ele abriria a porta pra saber
quem ou o quê queriam.
E assim foi feito,
por volta das dezenove horas,
quando a porta
começou a ser batida
e até a maçaneta era mexida,
aquele idiota corajoso abriu a porta,
já com a carabina engatilhada
e na mira.
E do outro lado havia um porco
que era criado no sítio,
mas que estava de pé, ereto
em duas patas feito humano
e numa voz cheia de ruídos,
grotesca e sombria
disse que queria comida,
uma galinha preta com farofa e pinga.
A comida lhe foi entregue
que após ser devorada
o porco se virou e picou a ficha,
sem nunca mais cair na vista.
No outro dia
o padre foi chamado novamente
para ir ao sítio com urgência,
e ele estava convencido que
os eventos eram causados
pela menina adotiva
que morava na casa
e vivia incomodada.
A garota foi entregue
de volta a seus pais de sangue
e tudo como num passe de mágica
acabou.
Pelo menos naquele local...
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10/08/2008