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Me pega, por favor!

 [ PLANO ESCURO ]

[ Cena segue em plano escuro. ]
[ Som em fade in: barulhos de objetos sendo quebrados, coisas sendo arrastadas e jogadas no chão. ]


[ O plano preto começa a abrir em ângulo baixo. A câmera circula o ambiente, mostrando o chão completamente bagunçado. Ela continua a se mover até chegar aos pés de Maria Helena, que pragueja em voz alta, revirando o camarim à procura de sua palheta de casco de cabra. A câmera sobe pelo corpo de Maria Helena até focar em seu rosto, em um ângulo que, ao se abrir, revela a porta do camarim atrás dela. ]

- “Merda! Cadê minha palheta! Merda! Merda!”



[ A câmera se afasta, e a porta do camarim se abre, revelando Cruzeiro Miranda, empresário de Maria Helena. Ele para na porta, observando o camarim destruído. ]

[ Som externo da música aumenta ao abrir a porta. Barulhos de pessoas falando, tilintar de copos e garrafas e o som da banda tocando. ]



- “O que é isso, Maria Helena? Deu para ser pop star e quebrar todo o camarim? Vamos ter que pagar essa bagunça agora...”

Maria Helena fita o rosto de Cruzeiro, apontando o dedo e gritando:
- “Não me irrita mais, Cruzeiro! Perdi minha palheta de casco de cabra. Não vou tocar!”

Discretamente, Cruzeiro Miranda entra no camarim e, antes de fechar a porta, verifica se ninguém do lado de fora viu a destruição.



[ O som externo da música diminui ao fechar a porta, ficando abafado. ]



- “'Cê tá de sacanagem comigo?! Andou tomando tóxico? Depois de quebrar todo o camarim, 'cê vai ter que tocar nem que seja amarrada para pagar toda essa merda. Presta atenção... está quase na hora, se arruma e vamos para o palco, que o show de abertura já está acabando...”

Maria Helena reluta, balançando os braços de forma infantil, mas começa a ajeitar a roupa e se olha no espelho quebrado.



[ Pausa dramática... ]



Maria Helena se vira para Cruzeiro e diz:

- “Não posso tocar sem minha palheta. O Capeta vai vir atrás da alma. Será que você não entende isso? Puta que pariu! Que merda!”

- “Deixa de crendice, Maria Helena! Você vai tocar nem que seja à força. Dá uma olhada nisso...”. Cruzeiro Miranda extrai do bolso da calça um enorme maço de dinheiro e continua:
- “Já pagaram o show adiantado... E vou tirar da sua parte a grana para pagar essa porcaria que você fez no camarim. 'Home, seu rapaz!' Onde já se viu?! Vamos! O show de abertura já acabou...”



[ No momento em que Cruzeiro diz: “Home, seu rapaz!”, o som da banda no fundo termina, sobrando apenas o barulho do bar. ]



Atônita, Maria Helena engole em seco, e suas mãos começam a tremer, dificultando a busca por um cigarro na bolsa. A tremedeira é tão forte que ela deixa cair vários objetos até encontrar a carteira. Ela derruba mais cigarros, tentando tirar um, e, ainda tremendo, consegue levá-lo à boca. Após quebrar vários palitos de fósforo, com muito custo, ela acende o cigarro.

Maria Helena se olha no espelho, ajeita os cabelos e coloca seu chapéu preto. Ela se dirige ao sofá onde o violão (também preto) está, já fora do case. Pega o instrumento e caminha desanimada em direção à porta. Agindo como um falso cavalheiro, Cruzeiro Miranda abre a porta e a deixa passar. Ele retira as chaves que estavam na parte interna do trinco, tranca a porta por fora e as guarda no bolso.



[ Corte seco na porta sendo fechada. ]

[ A cena escurece, mesclando-se com a penumbra da próxima cena... ]

[ Som: barulhos de pessoas falando alto; gritos e outros sons estranhos de batidas. ]

[ Enquadramento nas costas de Cruzeiro Miranda, que acompanha Maria Helena, visivelmente desnorteada e 'sem rumo'. Cruzeiro coloca a mão no ombro dela para guiá-la até o palco. No meio do caminho, eles se encontram com os dois violeiros que se apresentaram no show de abertura, que abordam Maria Helena para conversar. ]



- “Maria Helena, a dama da viola! É uma honra conhecer você pessoalmente, somos seus fãs. Ficamos muito agradecidos por ter feito o show de abertura pra você.”

Assustada, Maria Helena não presta muita atenção. Ela olha em volta, observando o clima e as pessoas no bar. Ao voltar o olhar para os rapazes, ela diz:

- “Ah! Não foi nada... Vocês dois são bão mesmo... [sic!] O bar hoje está pegando fogo, né?!”

Um dos violeiros responde:
- “É... Hoje o negócio tá pegando fogo mesmo! Bem, foi um prazer te conhecer, Maria Helena! Bom show pra você...”

Os rapazes se despedem de Maria Helena com gestos de devoção e abrem caminho para ela passar. Enquanto caminha em direção ao palco, flashes (cenas bruscas) surgem em sua mente, deixando-a mais perturbada. Flashes de pessoas rindo alto (entre um flash e outro, em um corte seco, a cena volta para o rosto desesperado de Maria Helena); flash de um homem agredindo uma mulher indígena; flash de um homem mexendo um copo de uísque com o cano do revólver. A cena mostra o rosto de Maria Helena em desespero total, suando frio. Em um ato de desespero espontâneo, ela tenta se voltar, mas Cruzeiro Miranda, percebendo a esquiva, com uma expressão seca e dura, aperta a mão no ombro dela e a conduz até a escada do palco. Ele tira a mão e gesticula para que ela suba e toque.

Lentamente, ela sobe a escada e, sobre o palco, continua sua caminhada, arrastando os pés e pisoteando cabos em direção à boca do palco, onde sua cadeira já a espera. Ela para um pouco antes de chegar à cadeira, coloca a mão esquerda nos olhos para diminuir o clarão dos refletores e observa a plateia. Mirando a porta da boate, percebe a animada chegada de vários peões, provavelmente vindos de uma longa comitiva. O ambiente esquenta ainda mais com o comportamento rústico dos peões — gritos de sapucaia; copos sendo jogados no chão; abordagens rudes às mulheres ali presentes; e o claro exibicionismo de suas armas (facões e pistolas) na cintura. O homem que mexia o uísque com o cano da arma para o movimento, apoiando a mão com o revólver no gatilho em cima da mesa. Com a mão esquerda, ele leva o copo à boca, bebendo todo o conteúdo. Nenhuma cena escapa dos olhares embaçados de Maria Helena, que tem a sensação de que o Capeta já está no recinto ou que com certeza aparecerá hoje por ali.

Ela desperta de seu transe, ajeita-se na cadeira, pluga o violão e, usando a própria unha, começa a tocar, dando início ao show.



[ Música de abertura: “A volta da guya campana”, autoria e execução de Helena Meirelles no CD “Ao vivo” (2002). ]


Com o início da música, a plateia faz um barulho ensurdecedor, ovacionando a violeira e aquecendo ainda mais o ambiente. Maria Helena fecha os olhos, entrando em um novo transe que a conduz a tocar suas músicas noite adentro.



[ A música “A volta da guya campana” continua tocando. ]

[ As cenas a seguir se passam em ritmo acelerado, mostrando os diversos acontecimentos na boate: garrafas se quebrando; o mesmo homem que mexia o uísque com o cano da arma começa uma briga, atirando em seu oponente e fugindo em seguida; mulheres se oferecendo para os peões bêbados, alvos fáceis para serem roubados; etc. ]



Enquanto a confusão ferve dentro da boate, do lado de fora, vários caramujos sobem estranhamente as paredes. Alguns rastejam sob a fiação elétrica do neon brilhante com o nome do local — Boate Azul —, fazendo a luz falhar.

...

O dia amanhece e, cambaleando de bêbada, Maria Helena sai pela porta da boate, que fica na beira da estrada do KM 11. Ela caminha até a beira do asfalto e, mesmo tropeçando devido ao efeito do álcool, segura com firmeza a alça de seu violão guardado no case, para que não escorregue ou caia.

Tentando focar a visão, Maria Helena olha para a esquerda e nota que nenhum carro vem daquela direção. Ela vira a cabeça para a direita e vê a mesma cena morta: nenhum veículo trafega pela estrada naquele alvorecer. Suspirando, ela ajeita a alça do violão nos ombros, toma fôlego e começa a caminhar pelo acostamento da estrada em direção a sua casa.



[ Música de fundo: “Carreta campesina”, autoria de Ercilia Marly Maia, executada por Helena Meirelles no disco “Flor da guavira” (1996). ]

[ Cenas de Maria Helena caminhando sozinha pela estrada. Após algumas milhas, ela se aproxima da encruzilhada do pé-de-cedro, um local onde ela pode ter a chance de conseguir uma carona para chegar em casa. O sol já está alto, queimando a pele de Maria Helena, que se 'derrete' de calor. ]

[ A música “Carreta campesina” entra em efeito fade out. ]



Na encruzilhada, ela nota um carro parado, uma C-10 branca com o capô aberto e fumaça saindo do motor. Ao se aproximar, percebe a presença de um homem em frente ao veículo, mas de costas para ela, olhando o horizonte e fumando um cigarro despreocupadamente. Educadamente, Maria Helena pergunta:
- “Precisa de ajuda?”

O homem, que usa um boné vermelho, camisa listrada por dentro da calça, um cinto com uma fivela enorme com o desenho de uma caveira bovina, calça blue jeans e botinas surradas, teatralmente se vira para 'perceber' a presença de Maria Helena e responde:
- “Oh! Até que enfim apareceu uma boa alma para me ajudar! Se não for muito incômodo, preciso de um ‘empurrãozinho’ para a camionete pegar... Seria possível?”

Com um 'ar elegante', o homem faz o pedido, e Maria Helena parece não ter como recusar. Ele abaixa o capô do carro e, com a porta do motorista aberta, se prepara para empurrar o veículo.

Maria Helena encosta o violão em um local seguro na beira da estrada e se prepara para empurrar a caminhonete branca. Depois de muito esforço, com a caminhonete embalada, o homem entra no carro em movimento e consegue fazê-lo funcionar. Maria Helena, já ofegante, apoia-se nos joelhos para respirar e vê o carro acelerando, soltando muita fumaça do carburador e deixando no ar um forte cheiro de enxofre. Sem esperar que seu ato lhe rendesse algo, ela desiste de assistir o carro soltar fumaça a cada acelerada brusca e decide voltar para pegar seu violão. A caminhonete dá meia-volta e vem em sua direção. Da janela do carro, o homem pergunta:

- “Qual seu nome?”
- “Maria Helena...” responde ela, ainda ofegante.
- “Quer uma carona, Maria?” oferece o homem, abrindo a porta do passageiro.
- “Pensei que não fosse perguntar”, responde ela, que pega o violão e entra na caminhonete. Ela então pergunta: - “E você? Qual sua graça?”
- “Graça?!” ele responde com um riso discreto... “Tenho vários nomes, mas pode me chamar de Sam”.



[ PLANO ESCURO ]



Quando Maria Helena abre os olhos, já é o entardecer. Ela não se lembra de como chegou em casa. Havia dormido com as roupas do dia anterior. Levantou um pouco a cabeça, passou a mão pelo corpo e, sem querer, a mão entrou no bolso da saia, encontrando sua palheta. Confusa, sem saber se o que tinha acontecido era real, ela divaga se tudo não passou de um sonho. Olha ao redor em seu pequeno barraco de um único cômodo: uma cama de casal em um canto, a pia e um fogão a lenha em outro, e um enorme banco de madeira próximo à porta. Seu violão está confortavelmente encostado na cabeceira da cama, como de costume. Com um pequeno esforço, ela se levanta e senta na beira da cama. Coça a cabeça, observa o fogão a lenha e vai em sua direção. Pega um pouco de lenha, abre a tampa da fornalha e a joga lá dentro, mantendo a chama que ainda restava. Pega a chaleira, vai até a pia, coloca água e a põe para ferver. Olhando para cima com um olhar vago, ela se lembra de checar as horas, percebendo que já está quase na hora de ir para a boate tocar.

Sem muita pressa, Maria Helena faz o café e bebe tranquilamente sentada na cama, pensando no acontecido. Deixa a caneca aos pés da cama, vai até a pia e se olha no espelho. Ajeita os cabelos, coloca o chapéu preto, pega o violão e sai.

...

Quando Maria Helena chega à Boate Azul, o estacionamento já está cheio de cavalos, carros e caminhões. Ao encostar a mão na porta, empurrando-a para abrir, ela sente um déjà vu seguido de uma tontura, cambaleia um pouco e leva a outra mão à cabeça, pensando em voz alta:

- “Que coisa estranha. Isso parece que já me aconteceu antes...”

Um arrepio dos pés à cabeça faz com que Maria Helena se remexa toda. Estalando os dedos no ar, ela diz:
- “Cruzes. Creio em Deus pai. Vai de retro Satanás! O sangue de Jesus Cristo é mais forte”.

Maria Helena faz o sinal da cruz, passa a mão na boca e, com um olhar desconfiado, entra no recinto.

Durante todo o tempo que Maria Helena ficou no camarim, ela teve o cuidado de não perder sua palheta, e por isso o camarim se manteve intacto. Quando Cruzeiro Miranda chega para avisar que é hora do show, ele mostra o dinheiro do cachê em uma cena exatamente igual à do dia anterior. Ela está confusa, sem saber o que é real. Quando ambos saem do camarim, Cruzeiro novamente retira a chave e tranca a porta. Vários flashes de cenas do dia anterior (ou sonho) passam pela cabeça de Maria Helena: uma mulher indígena sendo agredida por um homem; um homem enfurecido mexendo o líquido do copo com o cano do revólver. Novamente, ela é abordada pelos violeiros do show de abertura, que repetem a mesma conversa de antes. Ela está prestes a ter um ataque de nervos, sentindo o mundo girar em cenas tumultuadas. Cambaleia, mas não cai. Abaixa a cabeça bruscamente e, quando a levanta, diz a mesma frase proferida anteriormente:

- “O bar hoje está pegando fogo, né?!”



[ A cena se repete como antes. Os rapazes se despedem e abrem espaço para Maria Helena passar. Ela sobe no palco, observa o ambiente agitado antes de se sentar, acomoda-se na cadeira e começa a tocar. ]



Sem perceber, tocando em um transe constante, Maria Helena não nota a chegada de um homem vestido com roupas elegantes em tons de vermelho e preto, que o fazem parecer um Exu. Duas lindas mulheres, uma loira e uma mulher negra, o acompanham, uma de cada lado, ambas vestidas com trajes sensuais de tons vermelhos.

Quando Maria Helena levanta o rosto de seu transe musical, ela se assusta ao lembrar que o homem à sua frente é o mesmo que encontrou na estrada com o carro quebrado. O Exu mostra um leve sorriso no canto da boca, e seus olhos brilham com uma luz avermelhada.



[ PLANO ESCURO ]
[ Escrito: FIM ]
[ A música inicia ao aparecer o nome do curta — “Me pega por favor”, autoria de Délio & Delinha, executado por Helena Meirelles no disco “Histórias e causos” (1994). ]

[ Aparece o nome do curta-metragem. ]
[ Créditos do curta começam a aparecer... ]



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06/06/2013