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A lenda do Corpo Seco

 Seu Karmelino era fazendeiro rico
lá pras bandas de Pedro Gomes.
Chegou com a invasão de setenta
e estabeleceu impérios na região.
Trabalhou com comércio local,
e grilhou muitas terras.
Desmatou boa parte delas
e de lá expulsou
o povo indígena de sua terra.
Explorava os nativos da cidade
e não se importava
nem com o bem
e nem com o mal.

Iniciou carreira política,
Foi vereador, foi vereador de novo,
até ser prefeito de Pedro Gomes.
E quando achou que já bastava
de tanta roubalheira,
decidiu estabelecer família,
casou-se e teve filhos,
três pra ser mais exato, então...

Mas sua avareza não tinha fim.
Era rígido em casa
e não deixava haver gastos,
todos economizavam
na conta do pão,
da energia
e na água.
A roupa lavada aproveitava
a água que caia da chuva.
E enquanto havia a luz do sol,
todos se sentavam na varanda,
e mesmo quando a noite caía,
eles papeavam embaixo
do poste de luz na calçada.

Os filhos cresciam,
e todos herdaram
a roupa do primeiro,
e como a menina foi a última,
sempre havia a confusão infinita:
“que lindo garoto”
“é menina!”
se irritava ao retrucar
a mãe das crias.

Karmelino não se importava,
tinha muitas amantes na cidade
e era de conhecimento público.
Mas seu casamento era firme
por conta da época que ele vivia,
ora esposa submissa
suportava o marido
chegar tarde em casa
fedendo perfume barato.
Quando se embebedava
a coisa desandava.
Batia na mulher e nos filhos
e nem ligava
se a rosa tinha ou não espinhos.

O tempo foi passando
e os filhos foram crescendo,
o mais velho,
ficou cuspido e escarrado feito pai;
o segundo, homem também,
mas rejeitado,
se matou;
e a moça mais nova fugiu
com um rapaz e ninguém nunca mais a viu.

Imperdoável,
e mais amargo Karmelino,
roubava cada vez mais,
explorava e destruía a natureza
retirando tudo dela sem nada devolver.
E mesmo no seu leito de morte
já velho e ensandecido,
não perdeu a avareza
e gastou até o último centavo
a fim de não deixar nada pra ninguém.

Sem dinheiro para pagar o enterro,
a viúva optou
em enterrá-lo
como indigente,
num simples caixão de maderite.
Sete dias depois
o avarento Karmelino é visto
perambulando à noite pela cidade,
feito zumbi e chupando sangue dos animais.
A população local logo percebeu
que ali se tratava de um “corpo seco”
que aquele avarento iria pagar
por seus pecados na pior forma possível,
sendo um monstro desprezível
por toda eternidade.
Dizem que construíram um calabouço
e o trancaram lá,
e até hoje
vive a berrar
sem ser ouvido.


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05/08/2008